O ambiente à nossa volta inclui uma variedade de pessoas que nos influenciam e afectam de formas bem diferentes. Por vontade própria ou não, relacionamo-nos diariamente com várias pessoas pertencentes ao nosso grupo de trabalho, de amizades, da família, e tal implica investimento emocional da nossa parte. Quando o retorno desse investimento resulta em bem-estar e crescimento pessoal e emocional, o equilíbrio que sentimos remete naturalmente para a manutenção e preservação desse grupo de pessoas envolvidas. Contudo, há alguns indivíduos pertencentes ao nosso círculo de contactos que nos impactam de forma negativa e a resposta emocional que provocam em nós é de ansiedade, stress e desconforto. É claro que há pessoas que, pela sua forma de se expressarem e comportarem, têm maior tendência para provocar esse tipo de impacto negativo nos outros (a chamada “toxicidade emocional”, “pessoas tóxicas”). Mas temos que admitir que todos nós somos “tóxicos”. Ninguém está a salvo de que algum comportamento seu seja classificado como “tóxico”, entendendo como “tóxico” aquele comportamento que afecta, impacta e pode prejudicar os outros. A questão é que tudo depende com quem nos relacionamos. Um determinado comportamento, pensamento expresso ou atitude pode ser recebido e impactar cada um de nós de forma completamente diferente. Positiva ou negativamente. E podemos ser “tóxicos” não apenas para os outros, mas também para nós mesmos. O modo como nos tratamos e a maneira como falamos sobre nós influenciam-nos. Somos os juízes das nossas ações, muitas vezes desvalorizando-as e avaliando-as como negativas ou insuficientes. Quando a frequência e a distorção desse tipo de avaliações aumenta, estamos a lidar connosco de forma cada vez mais “tóxica”, provocando em nós mesmos desconforto, baixando a nossa autoestima e prejudicando as nossas relações com comportamentos conflituosos e negativos. Logo assim se entende como a auto-interpretação emocional que fazemos acerca das atitudes e comportamentos dos outros varia ainda mais. tóxicas1

Por isso, como lidar com quem consideramos ser “tóxico” para nós?

  1. A solução mais simples, caso não tenhamos uma relação significativa com tal/tais pessoa(s), é simplesmente afastarmo-nos e evitar qualquer tipo de contacto.
  1. Quando a pessoa em causa está necessariamente presente no nosso círculo de contactos mais próximos e frequentes e o afastamento físico é difícil,  há que procurar estabelecer os nossos próprios limites de modo a travarmos entrar numa espiral emocional negativa. Por isso é tão importante e imprescindível aprofundarmos o conhecimento acerca de nós próprios, de modo a implementar estratégias que para nós façam sentido.
  1. As pessoas que decidem investir no seu autoconhecimento conseguem mais facilmente reconhecer e identificar as suas próprias emoções e a melhor forma de lidar com elas e, desta forma, estabelecer os seus próprios limites e seleccionar sensatamente o contacto com aqueles outros que para si são “tóxicos”. Através desse autoconhecimento, temos possibilidade de tornar conscientes ou mais conscientes as nossas fragilidades e potenciar os nossos pontos fortes e assim também entender o porquê das várias pessoas nos impactarem de forma diferente.

Ser uma “pessoa tóxica” não é assim tão difícil e nem nos apercebemos disso. Podemos tornar-nos “tóxicos” quando manifestamos as nossas carências e conflitos internos não resolvidos. Os traumas, bloqueios internos, medos e convicções limitadoras podem levar à “toxicidade”, a qual reduz a probabilidade de empatia com o outro. E acabamos por ser “tóxicos” não só para os outros mas também para nós mesmos.

A partir do momento que investimos no nosso autoconhecimento, reforçamos as nossas potencialidades e abrimos caminho à tomada de consciência e compreensão dos nossos conflitos e traumas internos. Caso contrário, podemos estar a alimentar os nossos próprios pensamentos e comportamentos “tóxicos”, prejudicando a nossa autoestima e as nossas relações interpessoais. É que, muitas vezes, a tentativa de controlar os outros pode resultar de inseguranças internas, a negatividade e o pessimismo podem advir de uma educação muito exigente e crítica e a procura constante de manipulação emocional pode ter surgido de carências no nosso desenvolvimento pessoal e emocional.

Esta auto-responsabilidade emocional é então o primeiro passo para a mudança: só olhando para nós mesmos, interpretando emoções e compreendendo e admitindo “toxicidade” nos nossos comportamentos, detectamos a “dinâmica tóxica” que podemos estar a utilizar. Para sermos responsáveis pelo que sentimos, precisamos entender e gerir as nossas próprias emoções. Para além disso, estaremos mais conscientes para entender o outro, para compreender os seus sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente o outro indivíduo, aumentando consequentemente a empatia envolvida nos nossos relacionamentos. Não se trata de encontrar culpados para a forma como nos sentimos, mas de nos responsabilizarmos pelos nossos próprios comportamentos.

Este investimento na nossa responsabilidade emocional torna-nos mais optimistas e mais positivos na interpretação que fazemos das atitudes dos outros. Para além disso, alimenta a nossa objectividade e faz com que tendencialmente nos foquemos nas acções a tomar para o nosso bem-estar, equilíbrio das situações e no saber lidar com a “toxicidade” em vez de nos concentrarmos em acusações, problemas e em estados de negatividade emocional. Quando nos  focamos na acção, criamos uma sensação de “eficácia pessoal”, o que, por sua vez, leva a emoções positivas.

Conclusão: não podemos mudar o que nos que acontece e muito menos as pessoas que nos rodeiam, mas podemos mudar a forma como enfrentamos a nossa vida.

Para isso, temos que nos focar no nosso interior, no autoconhecimento e auto-responsabilidade emocional e escolher como vamos reagir perante determinada pessoa e situação, de modo a garantir o nosso equilíbrio e bem-estar.

A questão é tomar consciência desses mecanismos e transformar aquilo que consideramos “tóxico” em oportunidades de crescimento.

Teresa Feijão